Na Biblioteca: “Nu, de Botas”, Antonio Prata

Confesso que me atraiu primeiro a capa. Comecei a ler o livro bem despretenciosamente, como que para saber mais ou menos do que se tratava e não parei. Levei um dia para terminá-lo, tão interessante era.

Acho que ter passado anteriormente por “A paixão segundo GH” fez com que a simplicidade do Antonio Prata me atraísse tal qual água atrai o andarilho no deserto. De linguagem fácil e direta, ele conta memórias de sua infância de maneira tão engraçada e verossímil que me identifiquei com muitas passagens. Acho que o fato da história ter se passado na década de 80 tem também contribuiu bastante para o meu sentimento de nostalgia e sorriso nos lábios que levei do início ao fim.
De positivo, acho que o livro carrega um humor e leveza que me é necessário de quando em vez. “Nu, de Botas” é lazer. De negativo, acho que o fato de ser tão fino. Ele poderia ter colocado mais textos ali, poxa.
É um bom livro que indico e certamente presentearia alguém que não esteja acostumado com leitura. Acho que é uma ótima porta de entrada para o mundo mágico da literatura. Dou quatro flocos de neve com gosto!

Avaliação :❄️❄️❄️❄️(4/5)

✍️Meus trechos favoritos:

“Não, não é verdade que a casa era “mais minha que de qualquer outra pessoa”. Havia uma área fora do meu domínio: o quarto da Vanda, território independente, onde eu não tinha o direito de entrar. Vez ou outra, pela porta entreaberta, sentia o cheiro forte de perfume e a via na cama, sob o lusco-fusco da televisão preto e branco, de bobes na cabeça, pintandoas unhas dos pés e cantarolando a música da novela das seis, numa postura relaxada que não levava para fora dali. Vanda vinha do interior de Minas Gerais e de dentro de um livro de Charles Dickens. Sem dinheiro para criá-la, sua mãe a dera, com sete anos, a uma conhecida. Ao recebê-la, a mulher perguntou o que a garotinha gostava de comer. Anotou tudo num papel. Mal a mãe virou as costas, no entanto, a fulana amassou a lista e, como uma vilã de folhetim, decretou: “A partir de hoje, você não vai mais nem sentir o cheiro dessas comidas!”. Vanda trabalhou lá até os quinze anos, quando recebeu a carta de uma prima com uma nota de cem cruzeiros, saiu de casa com a roupa do corpo e fugiu num ônibus para São Paulo. Todas as vezes que eu ou minhas irmãs a importunávamos com nossas demandas de criança mimada, ela nos contava histórias da infância de Gata Borralheira, fazia-nos apertar seu nariz, quebrado por uma das filhas da “patroa” com um rolo de amassar pão e nos expulsavada cozinha: “Sai pra lá, peste, e me deixa acabar essa janta!”. Minha mãe não gostava que nos referíssemos a Vanda como “empregada”, preferia “a moça que trabalha lá em casa”. Eu estranhava: por que dizer “a moça que trabalha lá em casa”, se a todas as moças que trabalhavam nas casas dos outros, os vizinhos chamavam “empregadas”? * * * Um dia, descobri que minha mãe trabalhava numa revista. Revistas, para mim, eram as da Turma da Mônica, que eu folheava avidamente, desde muito antes de aprender a ler. Minha mãe me explicou que a dela era diferente, uma revista para gente grande, mas que era feita no mesmo prédio que as da Mônica. Animado, imaginei pilhas de Cascão, Cebolinha, Mônica e Magali de graça. Pedi que me trouxesse algumas no dia seguinte. Não dava, ela me explicou. Infelizmente, não era dona da editora, apenas empregada. Que revelação! Imaginei-a fazendo almoço e café numa enorme cozinha. Vislumbrei seu quarto, no fundo de um quintal . Teria ela, também, uma TV preto e branco? Pintaria as unhas, sentada na cama, de bobes na cabeça, cantarolando músicas da novela? Como seria sua vida, depois que saía de casa na Brasília branca e ia ser “a moça que trabalha lá na editora”? Que empresa incrível devia ser aquela, que se dava ao luxo de ter minha mãe como empregada.
❤️
Primeira lição do incômodo: o calcanhar raspando na parte de trás do tênis e, pouco a pouco, empurrando a meia para baixo. Eu tentava andar mais devagar, tentava pisar reto, caminhar feito um robô, mas não adiantava: lá ia a meia em sua inexorável jornada rumo à planta do pé. Caso estivesse ocupadode mais para tomar as devidas providências, fugindo num pega-pega, num esconde-esconde ou num duro ou mole, apenas me agachava num canto, enfiava dois dedos dentro do tênis e, do jeito que desse — se desse —, puxava a meia um pouco pra cima. Sabia que era uma ação paliativa, que muito em breve ela estaria toda embolada lá na frente e eu seria obrigado a seguir o protocolo: sentarme num banco, tirar os tênis, as meias, vesti-las e me calçar novamente. Terminada a função, voltava ao pega-pega, aodemais para tomar as devidas providências, fugindo num pega-pega, num esconde-esconde ou num duro ou mole, apenas me agachava num canto, enfiava dois dedos dentro do tênis e, do jeito que desse — se desse —, puxava a meia um pouco pra cima. Sabia que era uma ação paliativa, que muito em breve ela estaria toda embolada lá na frente e eu seria obrigado a seguir o protocolo: sentarme num banco, tirar os tênis, as meias, vesti-las e me calçar novamente. Terminada a função, voltava ao pega-pega, aoesconde-esconde, ao duro ou mole, gozando por alguns minutos da alegria do dever cumprido, como se tivesse acabado de tomar banho, fazer a lição de casa ou comer um prato de legumes. Dez passos adiante, contudo, mastigada pelo insaciável maxilar do tênis no calcanhar, lá ia a meia descendo outra vez: lá ia eu, pequeno Sísifo, ladeira abaixo, ladeira acima.

❤️
Caso ouvisse os impulsos aventureiros e ignorasse os limites do peniquinho, talvez me atrevesse a saltar a rampa grande de skate aos nove, seria atacante e não goleiro no primário; perderia a virgindade antesprimeiro colegial, quem sabe fosse de carona até a Patagônia aos vinte? Se, no entanto, dedicasse meus parcos mililitros à Turma da Mônica e ao sorriso da mamãe, deixaria a rampa grande para os maiores e me contentaria em ir e vir com meu skate pela garagem, toparia ser goleiro nos campeonatos já que ninguém o faria e o professor solicitaria um voluntário; perderia a virgindade só nos estertores da adolescência e, dali em diante, preferiria os ácaros da poltrona à poeira da estrada.(➡️futuro de uma criança ativa e agitada vs. o futuro de uma criança calma e medrosa)

2 pensamentos sobre “Na Biblioteca: “Nu, de Botas”, Antonio Prata

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s