Na Biblioteca: Amor Líquido, Zigmunt Bauman

Sobre a Fragilidade dos Laços Humanos

Foi uma leitura muito interessante, mas não foi fácil. Na verdade, foi quase que incômoda, como quando nos falam verdades que já sabemos, mas evitamos lidar com elas ou não admitimos nem para nós mesmos.

O livro fala sobre vários assuntos relacionados com a conexão entre pessoas, muito mais amplo do que eu imaginava. Diz basicamente que as relações estão fracas a tal ponto que não queremos perder tempo com pessoas que não nos traga algo novo e desfazemos os laços “do nada”, sem explicações ou sem pensar que o ser humano tem múltiplas facetas. Queremos novidades o tempo todo e se alguém não pode nos dar, desfazer a amizade ou bloquear está ao alcance de um click: fácil, indolor(para quem faz), sem incômodos ou saias justas, apenas seguimos como se nada tivesse acontecido. Como disse acima, o livro aborda vários aspectos da vida líquida que deveriam ser estudados por mim não apenas em uma leitura. É muita coisa para levar em consideração, muito para analisar, ruminar e discutir, muito o que não entendi. Mas o que ficou foi principalmente os trechos relacionados a vida virtual e as consequências de um mundo líquido.

Eu me lembro das minhas primeiras amizades líquidas. Logo que me mudei para Noruega, a carência de familiares e amigos reais me fizeram ir em busca da comunidade brasileira daqui. Fiz amizades com algumas pessoas, participava até de um grupinho muito bacana, daquele tipo que se encontra com certa frequência para um café ou atividade parecida. Porém, no dia a dia a amizade era virtual, o contato era basicamente só pelo Fotolog(é, faz tempo!), pelo Orkut e posteriormente Facebook. Muitas amizades se desfizeram bem à francesa, seja de minha parte ou da parte do outro. A pessoa fez algo (que nem era tão grave assim) ou escreveu de uma maneira que achei desagradável ou simplesmente não respondeu. E a partir dai fiz minhas interpretações( e elas, as interpretações delas) e paramos de nos falar tanto na vida real como na virtual.

Hoje vejo tão claramente o desenrolar dos acontecimentos que sinto pena de mim/nós. A falha na interpretação de texto, a leitura sofrível ou equivocada, a inveja perante fotos da grama verde do vizinho(sem entender da existência do photoshop), a falta de privacidade, a curta duração das amizades, tudo isso me fez ver a merda que estávamos nos metendo. A verdade é que somos uma geração em teste, aqueles que quebrarão a cara em um mundo sem códigos de conduta, sem regras, leis, estudos anteriores, somos aqueles que tateiam no escuro esbarrando em acertos e erros para que a geração vindoura saiba como agir para não sentir as dores do mundo líquido.

É por essas e outras que não tenho conta pública em redes sociais. Eu uso uma conta do meu marido porque em um mundo tão dependente de Facebook, é necessário e quase que obrigatório ter um perfil para acompanhar os eventos da escola das crianças, por exemplo. Querem ter contato comigo, que mandem mensagens pelo whats ou sms para conversas curtas ( porque telefonar virou algo invasivo demais, não gosto!!!), prefiro mesmo marcar um café ou drinks, prefiro ler a pessoa por completo e não apenas suas palavras escritas.

Aqui curto e direto sobre o assunto:

No meu caso, não posso opinar em relação a vida amorosa líquida, já que conheci o meu bem ainda no início do mundo virtual. Porém, como já expliquei acima, a teoria de Bauman se aplica perfeitamente a amizades. Fiz isso no passado, continuo fazendo, embora com bem menos frequência e não é certeza que pararei de fazer.

Dou quatro flocos de neve porque, apesar da leitura ter sido interessante, por ser um assunto importante a ser abordado, não foi uma leitura prazeirosa daquelas que quero ler pra sempre. É leitura acadêmica, saca?

Avaliação:❄️❄️❄️❄️4/5

📝Trechos interessantes:

O principal herói deste livro é o relacionamento humano. Seus personagens centrais são homens e mulheres, nossos contemporâneos, desesperados por terem sido abandonados aos seus próprios sentidos e sentimentos facilmente descartáveis, ansiando pela segurança do convívio e pela mão amiga com que possam contar num momento de aflição, desesperados por “relacionar-se” e, no entanto desconfiados da condição de “estar ligado” em particular de estar ligado “permanentemente” para não dizer eternamente, pois temem que tal condição possa trazer encargos e tensões que eles não se consideram aptos nem dispostos a suportar,”

“A palavra “rede” sugere momentos nos quais “se está em contato” intercalados por períodos de movimentação a esmo. Nela as conexões são estabelecidas e cortadas por escolha. A hipótese de um relacionamento “indesejável, mas impossível de romper” é o que torna “relacionar-se” a coisa mais traiçoeira que se possa imaginar. Mas uma “conexão indesejável” é um paradoxo. As conexões podem ser rompidas, e o são, muito antes que se comece a detestá-las”

“A experiência dos outros só pode ser conhecida como a história manipulada e interpretada daquilo por que eles passaram.”

“O fracasso no relacionamento é muito freqüentemente um fracasso na comunicação.”

“Uma “relação de bolso” é a encarnação da instantaneidade e da disponibilidade. Quanto menor a hipoteca, menos inseguro você vai se sentir quando for exposto às flutuações do mercado imobiliário futuro; quanto menos investir no relacionamento, menos inseguro vai se sentir quando for exposto às flutuações de suas emoções futuras”

“Formar uma família” é como pular de cabeça em águas inexploradas e de profundidade insondável. Ter filhos significa avaliar o bem-estar de outro ser, mais fraco e dependente, em relação ao nosso próprio conforto. Ter filhos pode significar a necessidade de diminuir as ambições pessoais, “sacrificar uma carreira”,como pessoas submetidas à avaliação de seu desempenho profissional olham de soslaio em busca de algum sinal de lealdade dividida.Mais dolorosamente, ter filhos significa aceitar essa dependência divisora da lealdade por um tempo indefinido, aceitando o compromisso amplo e irrevogável, sem uma cláusula adicional “até segunda ordem” — o tipo de obrigação que se choca com a essência da política de vida do líquido mundo moderno e que a maioria das pessoas evita, quase sempre com fervor, em outras manifestações de sua existência. Tomar consciência de tal compromisso pode ser uma experiência traumática. A depressão e as crises conjugais pós-parto parecem enfermidades específicas de nossa “modernidade líquida”, da mesma forma que a anorexia, a bulimia e incontáveis variedades de alergia”

Não há sentido em comparar os sofrimentos do passado e do presen“te, tentando descobrir qual deles é menos suportável. Cada angústia fere e atormenta no seu próprio tempo”

Imagem-Reprodução

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4 pensamentos sobre “Na Biblioteca: Amor Líquido, Zigmunt Bauman

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